VOO DO CONDOR

Monday, September 18, 2006

LETRAS DE AMOR PARA UM EMBONDEIRO

Para Joseph

Quero viver-te intensamente, Embondeiro;
Quero viver-te sem forma nem medida;
Quero viver-te por um instante,
ainda que seja só por um segundo;

Quero-te como ao cheiro a terra molhada, Embondeiro
porque cheiras a chuva de verao;

Quero-te como ao mar azul
porque tens sabor a agua e a sal;

Quero-te como a um campo branco de algodao
porque te sinto seda macia debaixo dos meus dedos;

Quero-te como ao som de um batuque
porque assim bate o teu coracao;

Quero-te como ao sabor a fruta, Embondeiro;
Quero comer-te a boca de beijos
porque tens sabor a amoras silvestres;

Quero perseguir as linhas do teu corpo
como se fosses um mapa de Africa;
E percorrer-te as veias como trilhos
para me misturar com o teu sangue vivo e vermelho,

Quero-me perder nos teus caminhos
sem querer chegar a parte alguma;

Quero sair do porto que há nos teus cabelos e
navegar no mar profundo do teu corpo;
Quero naufragar nos teus olhos sem medo de me afogar;
Quero atracar no teu coraçao sem medo de me fixar;

Deixa-me subir ao cimo de ti , Embondeiro
Enlaça-me com teus ramos longos e nodosos
para que eu possa dormir sem medo de acordar.

18/09/2006
Buenos Aires

Thursday, August 10, 2006

HISTORIAS DO MUNDO PARA ARIANA E BEATRIZ

O PIU PIU AMARELINHO

O piu piu amarelinho
dorme dentro de um ovinho
todo enroladinho como um bicho de conta.

Ai que quentinho!

- Uaaaaaaaaaaaaaauuuuuuuuuuuuuu!
abre a boca aborrecido.
- Estou cansado de aqui estar!

Bic, bic, bic,
parte a casca do ovinho
faz um buraquinho
e ja esta cá fora a saltar.

Ca ca ra ca ca, anda ca vamos papar!
Chama a mae que é galinha,
e tem historias para contar.

O piu piu amarelinho
sacode as penas ao sol
e corre atras de um caracol.

Está cansado de brincar,
abre a boca:
- Estou com sono!
Esta na hora de nanar!

Friday, August 04, 2006

Notas do subconsciente

Menino do rio, olhos rasgados pelo vento, cabelos com brilho de chuva, covinhas na cara para guardar berlindes coloridos, o corpo esguio e doce como um sorriso de chocolate.
Salpico-te o corpo de sal e pimenta. Derreto-me diante dos teus dedos para que me possas amar.
Tenho em mim milhares de estradas, rios para que possas navegar.
Preparo o ventre para que sejas passaro e possas voar.
Quero levar-te ao baile, menino, para morder-te os labios com o mesma voracidade com que devoro morangos selvagens.

Notas do subconsciente

A cabeça tenta esquecer a fome que vive no mais fundo de mim.
Ja nao sei como alimentar-me.
O estomago roi-me as entranhas por falta de pao.
Devoro-me e no entanto tenho a boca fechada a cadeado.
Nao ha medo dde comer para quem sabe o que è um pao envenenado.
Deito-me esperando o tempo enquanto a musica se espera a si mesma.

Ilda Buenos Aires

Saturday, June 24, 2006

Aqui chove, faz calor.

Aqui Chove! Aqui Jaz! Aqui nao apodreço!
Algum frio passeando lá fora nas calles húmidas.

Veraneio aqui dentro, sentada numa cadeira de madeira sem baloiço.
Julho chega-me assim calmo e quente.
Espreguiço-me sonolentamente neste sol de Inverno.
Vem Agosto em desassossego como um menino irrequieto e atribulado.
Oiço Setembro na varanda, bebendo café ao pôr-do-sol.

Há-de vir Outono nas folhas amarelas que caiem, cansadas de existir.
Ha-de vir Outono de castanhas mansas e doces, de nozes amargas por falta de tempo;
Há-de vir Outono de árvores que se despem, lentamente,
no lusco-fusco da madrugada diante de maridos envergonhados pelo frio;
Outono há-de vir de ventres inquietos e revoltos comendo maos;
de púbis que se vestem de vermelho como maças ansiando pecados;

O Inverno vem ja, num futuro conjugado hoje.
Vem de mansinho, pé ante pé.
Dá-lhe um vento norte e revolta-me o cabelo;
Despenteia-me o corpo!
Gotas frias como salpicos no rosto!
Chove-me na alma! Tenho o telhado roto!
Muitas goteiras ca dentro!
Debalde coloco vasilhas pela casa para aparar angustias.
Sobejam para fora como creme nas bolas de berlim.
Reparto porque é doce!
Exclamacoes desesperados nao têm sentido!

A primavera virá como a erva.
Tarda!
Rompe o corpo das velhas com braços verdes e tenros.
Faz brotar girassois com amarelo antes do tempo.
Faz enlouquecer andorinhas.
Expoe a terra o sexo húmido ao sol macho.
Atravessa-a duro e quente como cabeças de estátuas.
Primavera-se ela pela intensidade.
Eu primavero-me, tu primaveras-te, nós...
Quem sabe também eles e vós.
Tenho a cabeça dormente.
Enlouqueço!!
Aaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
As maos frias e o coraçao quente;
O corpo estremece em vibracoes;
Vivaldeio-me deseperadamente em 4 estacoes.

Buenos Aires
Ilda

Wednesday, June 21, 2006

Historias do mundo para Ariana e Beatriz

O CONDOR - Rumo à terra firme

O Condor traçou no mapa a rota da terra, carregou-se de vontade e saiu do porto que há no céu.
Voou com entusiasmo três dias e três noites.
Quando havia sol esticava as asas e planava, deixava-se levar na corrente.
E quando nao, batia as asas, acima e abaixo, e abaixo acima, sem parar, pois assim mesmo é que é voar. Apanhou ventos e tempestades. Sentiu-se marinheiro navegando naquele mar sem marés.

- Terra a vista!! disse do alto do céu, com os olhos cansados de tanto azul.

Aterrou no galho da primeira àrvore que lhe apareceu. Era grande, com uma copa gorda e verde. Mais parecia barriga de cozinheira. E tinha nos braços frutos de madeira pendurados. Que coisa mais estranha! Ahhhh, devia ser uma nogueira, pois claro.

- Coisas do Arco da Velha!!
Adormeceu sem comer e no outro dia acordou esganado.

- UUUUUUUaaaau, bocejou, horas de um grande pequeno almoço.

Esgravatou a terra para procurar minhocas por inventar. Nem uma para amostra.

- Ok, Ok, burro com fome cardos come!E como nao era burro nem cardos havia, partiu com o bico uma noz com casca de madeira e por pouco nao quebrava também o bico. Comeu o que estava lá dentro. Devia ser coraçao de noz. E agora estava no papo transformada em noz mascada.

- Delicioso! Umas gotitas de agua para empapar e mais um par de nozes, e mais umas gotitas de água e mais nozes, e àgua e noooooooooozzzzzzzzzzzzes...

Estava enfartado! Inchado como um balao. Que nao fosse tao guloso, ora!Pôs-se a caminhar para fazer digestao e nesse mesmo dia, distraído, andou quilometros atè ficar com bolhas nas patas.

- óóoooooooóóh! Como me dói! óóoooooooooóóh.

E neste lamento dormiu, fez óó. Levantou-se ao outro dia sem poder sequer pensar em nozes. Estava ressacado! Foi dar uma volta para se distrair. E andou três anos distraìdo dando voltas.

Buenos Aires
Ilda

Historias do mundo para Ariana e Beatriz

QUANDO DEUS INVENTOU O MUNDO III
O condor

Cada pássaro no seu galho. Deus viu que nao podia voar.
A terra permanecia distante e dela nao havia noticia, nem sequer uma carta.
Entristeceu. Fez beicinho. Soltou uma lagrima, uma outra mais gordita e ainda outra.
Choveu de tanto chorar.
E quando as lagrimas se secaram todo o céu era um mar branco de cristais pequeninos, como areia da praia. Luziam e reluziam como pedras preciosas.

Deus era agora um menino de calcoes com pá e um baldinho com uma estrela pintada. Pôs-se a juntar os cristais num montinho e como estavam ainda molhados pôs-se a fazer casas e castelos, dragoes, tudo coisas que ainda estavam por inventar.
Olhou o céu. Lembrou-se de voar e construiu un pássaro de cristal, grande, maior que grande, gigante com umas asas enormes, brancas e brilhantes. E quando ja estava pronto teve medo de o partir.

Havia de o pôr a voar!

Atou-lhe uma corda com fitas de cores como aquelas que têm os papagaios de papel e pôs-se a puxar, a correr, a correr e a puxar, e a correr, a correr e o passaro branco, no ar a voar, a voar, alto, ainda mais alto e o menino-deus de tanto se espantar, soltou a corda. O pássaro desprendeu-se no ar, desiquilibrou-se e comecou a cair, a cair, a cair.
Vai-se estatelar!
E Deus vendo que ele podia morrer mesmo antes de nascer soprou, soprou muito, mais que vento com halito de vida e ele logo ali se animou, bateu com força as asas e voou, voou, tanto, tanto e tao alto que se cansou de tanto voar e pôs-se a dormir no ar, a flutuar. Estava tao reluzente que com o sol quase nao se podia olhar.
E Deus disse:
- Hei-de pintar-te de negro para te poder ver a voar.
E pintou-o de negro, preto como a noite e mais reluzente que as estrelas.
E Deus disse:
- Has-de ser o rei de todos os passaros. O mensageiro entre a terra e o céu.
E ali mesmo lhe colocou na negra cabeca uma coroa de cristal.
Buenos Aires
Ilda

MISIA - MARIA DE BUENOS AIRES

Misia foi ontem a Maria mui querida de Buenos Aires.
Todos a conheciam melhor que eu. Que diabo!!! E eu sou portuguesa.
Mas que em verdade se diga que eu conhecia-a apenas pelo lado teatral, pelo seu glamour, quiça pela sua persistencia de mulher.
Quizas, quizas, quizas...E quiça foi o destino conhece-la aqui.

Aconteceu no ultimo dia de um curso de teatro quando Gabriel- o meu amigo de Catamarca, com um "tataravô" português - se levantou e sem grandes discursos pôs a rodar uma musica "como un regalo".
A voz saia forte e doida das colunas de som, preenchia a sala, o circulo, os olhos molhados da gente.
A mim invadiu-me a saudade porque ouvia em Português.
E numa ignorancia plena disse a Gabriel:
- Quien és? Portuguesa, non?
Misia, respondeu. E punto!!!
Ontem nem eu queria acreditar. Estava a ouvir Misia em Buenos Aires.Antes de entrar disse a Gabriel que para ser fadista nao bastava ter uma boa voz, ter tecnica, era sobretudo necessario ter alma de fadista, ter sofrido, ter amado, ter vivido.Misia tem isso tudo junto.
Surpendeu-me!
Entrou descalça vestida de negro e encheu a sala com a sua voz, com o seu encanto, com o seu coracao, com a sua paixao quieta, com o seu glamour e persiosismo teatral, dando-se, revelando-se, entregando com inteligencia, humildade partes de si misma.
È sobretudo uma grande comunicadora, com uma grande ironia e uma grande adepta da lingua e cultura portuguesa.Ontem encheu Buenos Aires de Portugal.
Cantou Saramago, Pessoa, Vinicius e Amalia mas tambem cantou e apresentou Natalia Correia, Carlos Paredes, Lobo Antunes, Vasco Graça Moura Sergio Godinho, e alguns poetas populares.

Um espectaculo muito bem delineado, muito inteligente, que vai do fado ao tango e tambem à musica francesa. E em todos os gèneros se move com elegancia e mestria. Muito boa è tambem a dramaturgia (posso dizer assim, non? si!!) . Que historias loucas que conta para apresentar cada musico e para se apresentar a si mesma. Ficaria a ouvi-la contar historias toda a noite.
Partilham com os poetas e musicos o mesmo hotel? Tambem quero!
AAAAAaiii e que dizer dos musicos? Esteve muito bem acompanhada. Que musicos excelentes! E aquele homem vestido de branco, de sombrero descaìdo, tocando violino, quem era?Me matou, che!!!O final foi apoteòtico com Misia cantando Maria de Beunos Aires e o publico aplaudindo, gritando, dizendo
- Que liiiiiiiiiiindo!!! Que lindo!!!
E no final uma mulher contestou:
- Que non tengamos que esperar mas 7 anos, eh Misia?

E eu pergunto:- Que mierda esperamos em Portugal???
Eu espero conhecê-la mais além, muito mais alèm da franjinha e das virgulas na cara.
Obrigada a todos pela noite, porque depois saì com Gabriel, gritando, bailando, bebendo whiskey - essa bebida tao portuguesa - cantando fado desde el Obelisco hasta Corrientes. Acabamos comendo Pizza.

E Misia, nao te exportes de novo. Nao quero que sejas francesa, tao pouco japonesa, tu ès portuguesa, quero-te assim!!!
Beijos mil
Ilda de Buenos Aires

Historias do mundo para Ariana e Beatriz

QUANDO DEUS INVENTOU O MUNDO II
Sonhou que podia voar

E dois dias esteve Deus de boca aberta de tanto se espantar.
E dois dias esteve a terra, sem dormir, sempre a cantar.

Ao terceiro dia viu que ela lhe fugia como um barco do cais. Estava cada vez mais longe, tao longe, tao longe do ceu que Deus quase ja nao a podia ver. Entao inventou uns binoculos para ve-la mais de perto e ate parecia que lhe podia tocar.
Mas terra foi navegando mais e mais e mais e perdeu-se na linha do horizonte de Deus.
Chorou como um menino. Sentiu saudades da terra. Teve sono e dormiu. Sonhou que podia voar.
Sonhou até que com asas podia planar, ficar assim quieto, dormindo no ar por cima da terra.
E ao quarto dia de manha, despertou bem cedinho e pös-se a fazer umas asas com penas negras, brilhantes, acabadinhas de inventar.
E como ja estava muito crescido fez umas asas articuladas muitissimo grandes e pesadas. Prendeu-as atras, nas costas, subiu ao peitoril da janela, soprou o ar para fazer vento e preparou-se para levantar voo. Olhou para baixo e teve medo de cair. Tremeram-lhe os joelhos e teve medo de saltar. Saltou; caiu no ar; esfolou os joelhos e nao teve mae para o consolar;

16/06
Buenos Aires

Historias do mundo para Ariana e Beatriz

QUANDO DEUS INVENTOU O MUNDO I
A invencao das cores

No princípio estava tudo para começar. Nao havia nada, nadinha de nada.
Havia apenas Deus e uma cadeira de baloiço.
E num dia em que Deus se sentia só e cansado de nao fazer nada inventou as cores, porque só havia branco.
Era uma monotonia. O branco era o nada e o tudo ao mesmo tempo.

Plim! Teve uma ideia! Pegou no branco e pôs-se a mexer, e a remexer e descobriu o azul, o amarelo e o vermelho.
Hum, tinha já três cores.
Era uma politonia.
Mas ainda nao estava contente.

Plim! Teve outra ideia!

Pôs-se a misturar as cores e descobriu o castanho para pintar a terra;
o verde talvez para a esperança
e o laranja e o violeta para o que der e vier.

E pôs-se a misturar tudo, e tudo e tudo e descobriu o preto. Logo ali pintou a noite e viu que tinha medo do escuro. Estava mesmo quase a chorar, quando, sem querer, meteu o dedo no amarelo e logo ali pintou a lua e as estrelas.
Adormeceu de tanto brincar e quando acordou estava de noite. Ainda nao havia manha. Bocejou, meteu o dedo no amarelo e pôs-se a fazer uma bolinha redondinha; enfiou sem querer o dedo no vermelho e salpicou de tinta a bolinha amarela. Ela, logo ali, comeu o vermelho e pôs-se como louca a girar, a girar, a girar e explodiu soltando fogo.
Que susto!! Uiiiiii !! Por pouco Deus se queimava!!

E nao teve culpa nenhuma! A culpa foi da bolinha que comeu o vermelho e enlouqueceu, sentiu-se fogueira, e logo, ali inventou o sol.
E o sol, solzinho, inventou a luz, fez calor, e saiu de manha.

Que excitacao logo ali tao cedinho!! E que vontade de correr, de gritar e saltar.

E como nao havia cama, Deus pôs-se a saltar, a saltar sobre a cadeira porque nao tinha pai para lhe ralhar. Partiu-a e tambem nao tinha pai para a consertar.
E como nao tinha nenhum lugar para estar e se sentar, pintou um céu com azul para se acalmar. Distraiu-se e pintou tudo da mesma côr e ficou muito aborrecido porque so tinha ceu e mar.
Fez castanho e pintou a terra, pincelou-a de laranja e vermelho para que ficasse mais bonita. E como pensou que ela, um dia, poderia querer tocar o céu esticou-a tanto, tanto, tanto, que sem querer pintou montanhas.

Hummmm, ainda nao estava bem, faltava ali qualquer coisa.

Misturou o azul com o amarelo, inventou o verde que ja era esperanca e jogou para a terra umas gotitas. Nao ficou satisfeito e decidiu nao aborrecer-se com isso.
O sol estava ja para ir dormir. Deitou-se com ele e adormeceu.
No outro dia quando acordou já o sol estava de pé. Num salto assomou à janela e viu um verdadeiro milagre.
Tudo se havia transformado.
As pintinhas verdes eram agora arvores de todos os tamanhos e formatos, com copas gordas de folhinhas brilhantes; do amarelo nasceram os girassois e as abóboras; e do vermelho as papoilas e as maças; os mares tinham inventado as marés e os rios azuis; e os rios inventaram a água corrente e seguiam loucos, navegando entre vales e montanhas. O céu , para nao ficar pra ali a olhar, inventou um arco-iris de todas as cores.

Deus tinha a boca aberta, muito aberta, de tanto se espantar.
E pareceu-lhe que nada mais havia para inventar.
O céu piscou-lhe o olho e continuou a brilhar.
E Deus ficou á janela para poder sonhar.

Ilda
Buenos Aires
15/06/2006

Historias do mundo para Ariana e Beatriz

Tambem para a Ingrid

A MENINA QUE COMIA SABAO

A menina era pequenina, tao pequenina como o dedo mindinho; negros os cabelos que lhes chegavam aos pés; os olhos tao rasgados como uma boca com sorriso molhado; a boca rosada como a lingua de um gatito; os dedos esguios e azuis de tanto tocar o céu.

A menina comia sabao, aos pedacitos, como quem come caramelos, misturava as cores e os sabores para fazer arco-iris. E era tudo o que comia e por vezes sentia azia.
A menina nao se lembrava do pai, nao lhe sabia a cara e o sorriso, nao lhe sabia as palavras e os gestos, nao lhe sentia os dedos entrelaçados nas maos, a boca como beijos na cara e por isso, só por isso, comia sabao para ver se sonhava com ele.

De manha soprava bolinhas transparentes de sabao com arco-iris dentro. Caminhava os olhos verdes por dentro de cada uma , descobrindo cantos e recantos, esconderijos secretos, procurando-o; furava-as com o fura-bolos a ver se elas lhe soltavam o pai. Nao podia chegar a todas porque elas voavam como pássaros e escapavam muito depressa e subiam, subiam até ao tecto velozes e voláteis e ai ficavam por falta de mais céu para fugirem.

A menina que era muito pequenina subia para a sua cama, que era elástica e saltava, saltava, saltava cada vez mais alto, com os dedos esticados a ver se lhes tocava e com os cabelos fazia muito vento, uma verdadeira ventania, e entao elas sempre se escapam pela janela.
Ela ficava quieta, impotente, num silencio demorado, aterrador, vendo-as sair, fugindo-lhe ali, diante dos olhos, a possiblidade do pai. Era assim todos os dias.

E num dia de muito sol, enquanto elas se escapavam ela abriu os olhos verdes, aguados e viu-o transparente dentro de uma bolinha pequenina. E num salto, correu para a janela e esteve quase, quase a apanha-la mas o vento dos seus cabelos soprou e a bolinha voou alto, mais alto e mais alto.
E a menina que era muito pequenina esticou os dedos azuis, mais, e mais e ainda um pouquito mais, e alcancou-a. Agarrou -se com um dedo e com ajuda dos seus cabelos longos foi trepando céu acima até chegar á bolinha de sabao.Subiu para dentro dela, como se ela fosse um balao e viu-se sentada no colo do pai e ele sentado no colo de um automóvel tambem pequenino.

Ela segurava o volante, apitava, fingia que o conduzia;
Ele fingia o som - braaammmmmmmmmmmaaaaaaaaammammmmmmmmae; brammmmmmmmmmmmmppppppppppppppppppppppppppppppppppaai;
E o céu fingia o caminho.

Riam-se os trës äs gargalhadas até que já nao podiam mais de tanto cansaco.
Entao o pai deu uma mao ä menina e com a outra entrancava-lhe o cabelo, com fitas coloridas.
E a menina que era pequenina e tinha uns cabelos negros longos a tocar o chao, ficou com os cabelos da cor de arco-iris a tocar o céu.

A menina que era pequenina adormeceu no colo do pai;
E o pai adormeceu no sonho da menina;
Só o céu ficou acordado ä espera da manha.IldaBuenos Aires12/06/2006

HOJE ABRACEI UMA MULTIDAO

Sao quase tres de manha e mantenho-me acordada sem sono, tentando descobrir hoje o sentido que tem a vida.Milhares de perguntas me invadem o cerebro e espero que isso se espalhe pelo corpo para adormecer de cansaco.
É que hoje foi um dia especial - HOJE ABRACEI UMA MULTIDAO!!!.
Hoje descobri num abraco que existe muito mais alem do concreto do que sou eu ou do que és tu.
Hoje descobri num abraco que tens um fogo que emanas no mais profundo de ti que tu proprio desconheces e que eu apenas sinto.
Hoje senti nesse abraco algo que nao posso quantificar e que no entanto sei qualificar porque me soube bem. Hoje abracei-te como se abraca um irmao, com todo o corpo e coracao. E todavia nao sei o teu nome.
Hoje descobri num abraco que te quero muito mais alem da matéria, muito mais além do caracter e da personalidade, muito mais alem do teu perfume, muito mais alem do que defendes, do que cres, dos livros que lës, da musica que escutas, muito mais alem do que fazes ou constrois.
Hoje descobri que te quero por um olhar.
Quero-te e sinto-te para alem do explicavel, do dizível e do inteligivel.
Quero-te pela essencia, pelo mais profundo de ti mesmo.
Por isso nao me perguntes porque te quero e tambem nao me perguntes quem sou eu e nao me perguntes quem és tu. Nao quero reduzir-me, nao quero reduzir-te a um singular que sei que nao és.

E porque nos encontramos aqui? Que esperam de nós? O que fazemos aqui?
Tera sido por acaso este encontro? Será a vida uma mera coincidencia?
Havera algo acima de nós ou atrás de nós ou será que esse algo se nos adianta.
Será o movimento um acaso? E a fisica? Que dizer?

Sei o que nao sei.
E o que sei sera apenas o que sinto?
Descobri em dois dias um caminho que me pode levar a algum lugar, dentro do teatro, dentro de cada um de nós, talvez ate mesmo dentro do Universo, porque na verdade criamos onda, movimento, perguntas.
Descobri possiveis caminhos e no entanto estes caminhos foram-nos revelados desde os tempos mais ancestrais.
Porque andamos tao distraidos????

A vida é um enigma em que todos os dias aprendo a confiar de olhos vendados.
Aprendo a nao lutar contra a sua corrente.
Deixo-me levar neste rio que flui e, no entanto, äs vezes parece que nao sei navegar.
Sei, todavia que a vida se adianta e que em tempo certo me fará as suas revelacoes.
Eu espero sentada.Longe e devagar é a viagem amigos!!!Aquele abraco!!!

Historias do Mundo para Ariana e Beatriz

Dedicatória: Especial para as minhas sobrinhas - Beatriz e Ariana que estao para nascer e para os que tornaram possivel um sonho - os meus irmaos - Ao Zè, à Teresa, ao Toni e à Ana

E a todas crianças que ainda sabem sonhar, e a todos os adultos com crianças no peito; a todos os palhaços; a todos os que querem ser palhaços por um dia; a todos os que algum dia partilharam sonhos; aos meus pais que me contaram historias para sonhar; à minha irma Bela que ouviu os sonhos que eu tinha para contar; a todos os contadores e criadores de sonhos e historias; A Manuel Freire que me cantou que o sonho comanda a vida.
E por fim a todos os amigos do Trigo Limpo que me ensinaram numa "Fabrica de Sonhos" que sonhar nao tem limites. Para o Ruy - o meu - meu Ventura de Verdade por se aventurar comigo toda a vida e mais dois dias.
Por todos vós permaneço sonhando.


Ouvi dizer que os sonhos moram em gavetas por vezes fechadas, outras vezes abertas, escancaradas; em armarios de cozinha; debaixo da cama; dentro da caixinha da televisao, em discos de vinil e cassetes piratas.

Outros preferem habitar palavras e escondem-se nos livros com rugas amarelas, e tambem nos de capa dura com a fitinha vermelha para marcar, nos novos que cheiram a caderno de escola por estrear e ate nos albuns de memoria e fotografia.

Outros preferem viver em ursinhos de peluche, bicicletas, caramulos de brincar, num Ventura de Madeira que às vezes é menino de Verdade, guarda-chuvas de chocolate, chupa-chupas de fruta e caramelos; outros querem morar no calor de lareiras, que em tempos ouviam historias de bruxas e fadas de encantar.

E quantos existem nas rugas sulcadas da gente do mar; quantos habitam as maos gretadas de uma terra por cavar; E quantos tantos habitam as cidades que correm com pressa de chegar;

E quantos habitam os corpos dos homens? Os mesmos quantos que habitam os seios das mulheres que sobraram para amar; Os mesmos quantos permanecem num colo vazio esperando meninos que se hao-de parir.

E quantos ficaram suspensos nos olhos aguados e sabios dos nossos avós? E quantos foram os que ficaram por contar?

E que dizer dos quantos, tantos que habitam nas bocas esquecidas e abertas esperando fome?
Quantos permanecem dormentes nas barrigas inchadas dos meninos negros de Africa? Tantos quantos os que jazem nas maos das maes que cavam berços de terra para os filhos; Os mesmos que por excesso de angustia e desespero nao poderam gritar; os mesmos quantos que por falta de lagrimas nao poderam nascer.

Um dia destes pela manha, acordei com muitas ganas de viver e ouvi dizer que existem muitos sonhos , muitos mais que todos esses, que moram em flores por desabrochar; e muitos mais que esperam em sementes por brotar; E quantos permanecem nas gotas de orvalho? E quantos sonhos existem em cada estrela?

E disse-me um dia a terra que tem tantos, tantos sonhos em seu ventre que nao existem dedos para as contar e que espera apenas a chuva para se abrir e os fazer brotar.

E um dia li, que há sonhos, - muitos - que permanecem sentados, esperando um beijo no Cinema Paraiso, outros muitos estao para nascer na maquina de Fellini e hà muitos, muitos outros que estao por estrear na bengala de Charlot, nas maos brancas e màgicas de Marcel Marceau.

E os que se escondem no nariz vermelho de um palhaço? Sao taaaaaaaaaaaaaantos!!!
E ouvi dizer que muitos, muitos mais que todos esses, habitam os olhos e o coracao de um palhaço e que cada vez que ele se ri ou chora deixa escapar sem querer todos os sonhos da humanidade.

Beijos mil
Ilda
Buenos Aires